quarta-feira, 13 de agosto de 2014

 Aninha à primeira vista


 Quando Aninha passava, não tinha mesmo quem não olhasse: pescoços viravam, queixos caíam, olhos arregalavam, corações aceleravam: era uma explosão de sentimentos. 
  Aninha mexia com gente de qualquer tipo.
  Teve uma vez que até mesmo o Paulo, que vivia dando sermão no barzinho da esquina dizendo para quem quisesse ouvir que Deus não existia, soltou um "Meu Deus..." quando a Aninha passou com aquele saião todo florido, sussurrando uma música qualquer e desejando bom dia a todos que passassem por perto. Mesmo depois que a última mecha dos cabelos de Aninha foram vistos dobrando a esquina, Paulo balançava a cabeça como quem não acredita:
  _Mas só pode ser obra de Deus... 
  E os amigos da roda matavam-se de rir. 
  (E mesmo depois de muito tempo, quando Paulo começava com seu discurso de Evolucionismo, alguém da roda fingia avistar Aninha dobrando a esquina e gritava apontando:
  _ Ora, se não é a Aninha-obra-de-Deus passando ali!
  E Paulo olhava rapidamente para trás com esperanças de que a moça estivesse mesmo vindo e, quando percebia que fora enganado, caia na gargalhada com os outros rapazes para disfarçar a enorme decepção que sentia).
  Outrora, fora vez da Madame Viúva Carmem - pois era assim que ela exigia ser chamada desde que seu marido Jorge morrera há cinco anos, inesperadamente - deparar-se pela primeira vez com Aninha. A Madame voltava do mercado quando encontrou com a Comadre Josefina, a senhora gorda e de risada escandalosa que estava sempre sentada na calçada de sua casa, numa cadeira de balanço com um único pretesto: fofocar e espiar a vida alheia.
  _ Mas veja se não é a Madame Viúva Carmem! - exclamou Josefina escandalosamente partindo para um abraço - Comé que vai?

  _ Mas que saudade, Comadre! Vou muito bem e a senhora e a família? - perguntou a Viúva colocando a sacola de compras no chão.
  _ Vou muito bem e a família toda também... Quer dizer, menos o meu sobrinho, Paulo, sofreu muito esses tempos, coitado...
  _ O Paulo!? Mas o que é que ele tem?
  _ Iii Madame, tava com a pior das doenças...
  _ Nossa vida! Mas diga logo!
  _ Tava apaixonado... - respondeu suspirando fundo.
  _ Mas veja se isso é grave, Josefina! Quase me matou de susto! - disse aliviada.
  _ Como não? O homem não comia, veja que emagreceu quase sete quilos em uma semana! - e vendo a cara de piedade que Madame Carmem fazia, continuou: - Pois é, quase não saia mais, só pensava na Aninha e na sua saia florida... 
  _ Aninha? Não conheço...
  _ Ah, a Aninha é uma boa garota, nem liga de ser bonita daquele jeito, sabe que ela poderia até ser modelo se quisesse? Mas só quer saber de ensinar as criancinhas da escola que ela dá aula e ajudar os animais abandonados por aí... - Josefina então interrompeu-se olhando mais a frente - Veja ali, se não é a própria! ANINHA! - gritou chamando a moça.
  _ Boa tarde Dona Josefina! Lindo dia, não? - respondeu a moça se aproximando das duas comadres. 
  _ Não é que está mesmo? - respondeu Madame Carmem como se só agora tivesse reparado e com o sorriso mais bobo que já tivera no rosto. 
  _ Esta é minha comadre Madame Viúva Carmem - apresentou Josefina à Aninha.
  _ Carminha está bom... - corrigiu rapidamente a viúva dando dois beijos na bochecha da moça. 
  _ Muito prazer, Carminha. É uma pena que esteja indo trabalhar agora, então não posso me demorar aqui com as senhoras.
  _ Tudo bem, querida. Passar bem! - e despediram-se da moça.
  O resto da conversa, Madame Carmem passara olhando para o horizonte, salvo os sorrisos em horas que Josefina ria da própria fala ou os "poxa vida..." que exclamava.
  _ Paulo agora até que vai bem, começou a frequentar um psicólogo dos melhores e agora está voltando ao normal, engordando e voltando a frequentar os bares com os amigos... Coitado! A Aninha não quer saber de namorar, é menina focada, só pensa nos estudos e trabalho... Mas olha a hora, Madame! - assustou-se a senhora que desde que Aninha passara, falou sem parar por cerca de meia hora - Preciso entrar e preparar logo o jantar. Passar bem, Carminha! - e foi-se rindo ao lembrar da tão carrancuda Madame Viúva Carmem pedindo para ser chamada de Carminha.


               ********************

  Tarde da noite, o telefone da Comadre Josefina tocou.
  _ Mas quem será a essas horas? - levantou-se do sofá resmungando.
  Ouviu-se então do outro lado da linha: 
  _ Alô, Comadre? Aqui é a Vitória, filha da Madame Carmem. A senhora não me passa o número do consultório do psicólogo que ajudou o Paulo a se curar? Acho que minha mãe está com a mesma doença que ele, só sabe abraçar a almofada e suspirar "Aninha, Aninha"...



  

Um comentário:

  1. Qual o número do consultório mesmo? Acabei caindo em desgraça. Também sofro de 'Aninha'.

    Camila, Camila! Sua escrita continua maravilhosa e envolvente como bem me recordo!

    ResponderExcluir