segunda-feira, 18 de agosto de 2014

  Ah, aquela mulher...


  _ DESTA VEZ NÃO TEM MAIS VOLTA, RITA!
  Carlos gritou e bateu a porta com toda sua força. Pegou a mala que ele mesmo havia jogado no quintal de casa e saiu.
  Embora não aguentasse mais aquela mulher, ficou parado ainda por cinco minutos na calçada, pra ver se ela saia e implorava para ficarem juntos dizendo fazer qualquer coisa para reatar e que nunca mais iria aos bailes de sexta. Eles então se abraçariam e Rita mais uma vez lhe diria o quão grande era seu amor por ele.
  Durante os primeiros dias, lhe daria um gelo enquanto a mulher faria tudo para reconquistar seu coração e ele fingiria nem ligar, mas quando ela já estivesse triste demais, achando que ele não mais a amava, ele chegaria com a surpresa: flores e um anel de brilhante e PIMBA! Abraçar-se-iam de novo e ele a colocaria na cama para comemorarem.
  Resolveu sentar na calçada e esperar mais um pouco, vai ver Rita ainda estava se recompondo do choro antes de ir a procura dele. Não que ela estivesse chorando quando ele saíra, mas com certeza por puro orgulho. Ah, não tinha mulher mais orgulhosa que Rita. Mas sem ele para vê-la, com certeza agora se debulhava em lágrimas.
  Realmente, não aguentava mais aquela mulher.
  Como podia ela ter-lhe tanta ingratidão? 
  Após um longo dia de trabalho para sustentá-la com tudo do bom e do melhor sem que ela precisasse fazer nenhum esforço, para chegar em casa naquele momento e encontrar o personal trainer lhe fazendo massagezinha nos pés enquanto tomavam vinho e conversavam às gargalhadas? Era demais para ele!
  Tudo bem que Rita o convencera a contratar o Ricardão como personal porque a coitadinha se sentia desconfortável ficando naquele ambiente cheio de homens suados que era a academia e além do mais, ela era uma mulher comprometida com ele... Ah, aquela mulher o amava demais.  
  Agora que pensara, lembrou-se de outras tantas demonstrações de amor que ela tinha para com ele: não saia da cama antes do meio-dia para poder esperar bem acordada até a hora dele chegar. Nunca fazia a janta, não que não cozinhasse bem, mas porque adorava a comida cheia de amor do seu maridinho. Sua presença nos shoppings da cidade pelo menos uma vez por semana era confirmada, pois ela precisava comprar roupas para estar sempre linda para ele. Além disso, ia aos bailes todas as sextas para "exibir-se" e depois dizer que tudo aquilo era só de Carlos.
  _ Sua fama esta boa na cidade, viu? - dizia ela quando via Carlos de cara feia por ela sair novamente - Todo mundo morre de inveja sua, Carlinhos... Outro dia ouvi alguém dizer que "sortudo era o Carlos, chega todo dia em casa com aquele mulherão o esperando" e se eu não for aos bailes, nem às festas com minhas amigas, quando é que vão me ver para te invejarem, hã? - e Carlos ria cheio de si.

  Ah, aquela mulher não vivia sem ele. Resolveu então dar-lhe mais uma chance, desta vez, mostrando que quem mandava era ele. 
  Pegou a mala, abriu o portão e entrou. Ficara tanto tempo divagando que nem notara que o Ricardão encontrava-se ainda na casa, massageando sua querida esposa, só que agora, os ombros. Quando deparou-se com a cena, não pudera pensar em outra coisa: "com certeza Rita ficou tão tensa por eu ter saído de vez que precisou de uma massagem nos ombros para aliviar o estresse. Essa mulher é doida por mim".
  Carlos então encheu o peito de toda masculinidade e coragem que havia em seu corpo de sessenta quilos e disse em tom imponente:
  _ Ricardão, acho que o treino de hoje já encerrou. - O personal então
 levantou-se deixando claro que media o dobro tanto da altura, como da largura de Carlos. No entanto, o homenzinho não titubeou e continuou seu discurso agora se dirigindo a Rita - Querida, voltei pois sei que você não vive sem mim, mas agora, quero deixar BEM CLARO (levantara a voz exatamente nessa parte para mostrar que queria dar ênfase, como vira em um filme) que agora, eu é quem mando aqui. 
  Rita levantou os ombros como resposta e dirigiu um olhar a Ricardo para que ele se retirasse e assim ele fez. 
  _ Espero que tenha ficado claro que agora EU (fizera de novo) mando aqui, Ritinha. - e cruzou os braços em frente ao peito querendo mostrar imponência mas parecendo apenas um garotinho emburrado.
  _ Com licença, - era Ricardão aparencendo outra vez - o treino de amanhã ainda está marcado? 
  _ Claro, Ricardo, às 13 horas, como sempre - respondeu Rita com uma piscadela. 
  _ Não! - interrompeu Carlos. Essa era sua oportunidade para mostrar e não deixar dúvidas de que ele era o dono da casa e portanto, quem ditava as regras. Iria impor, sem pedir, sem implorar, sem expressar nenhuma dúvida em sua voz. Autoritário. - Venha às 14 horas, pois amanhã meu horário de almoço é mais tarde e não quero atrapalhar o treino de vocês. - Muito bem dito.
  Saindo da sala, Carlos pôde ainda ver que Rita precisou segurar-se para não cair na gargalhada, com certeza orgulhosa de ver o Ricardão ser rebaixado por seu amado marido. 
"Ah, aquela mulher com certeza não vive sem meu charme..." - pensava consigo enquanto desfazia as malas.

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